Rufar de tambores, faíscas-explosões de vagalumes, cortejo de estandartes na avenida: deram-me a chave em um breve momento de eternidade e, então, se conta o conto: Era uma vez a chave, no bolso do cavaleiro errante que, sobre o corcel de ouro, luzia na estrada desviante. Guardada no escuro instante, sob o céu de puro diamante, chorava sua sorte de metal, de pobre latão, mineral, esquecida no espaço fino das roupas, que no caminho, sentiam a brisa intensa e a água da chuva imensa caindo devagarinho. Chorava sua pobre sina, roendo as roupas rotas, mas orgulhosas de seus destinos: “Mas quando, de quando em quando, a água que cai de cima, que foge da nuvem branca e se espalha por entre o ar e se corta em pequenas gotas, verei sob o sol escaldante?” “Mas quando, de quando em quando, a brisa que abre o caminho, que corta os fios de linho tão finos e tão felinos, sentirei sobre a minha pele de pedra esculpida a fio?” A chave ensimesmada, imersa em seus delírios, de tanto pedir às fadas as portas de seu caminho rasgou com seus pensamentos a linda pele de linho que cobria o cavaleiro errante, montado em seu corcel de ouro a luzir na estrada desviante. A chave enfim tivera a sorte de um puro instante: deitada sobre a relva estava, seu metal, a sorrir, estalava, sua sorte, uma quimera. Mas a chuva que tanto quisera e o vento a sentir (pudera!), logo lhe revelaram o destino que nos espera: deitada na relva fria, molhada por choros de nuvens, cortada por sopros finos, tornou-se pura ferrugem. Do desejo que lhe invadira, sua vontade de liberdade, transformou-se a pele rica, metálica e luzidia, em marrom e aspereza, em ferro e dureza, em dor e agonia. Portanto, meu caro amigo, cuidado com o que queres, atenção às suas preces: pergunte-se sobre o que vale, sobre aquilo que mereces. Eu, de minha parte, já tenho a minha escolha, após ouvir tal disparate: prefiro ficar no escuro, caminhando um percurso duro, sem saber o que me espera, do que deitado na terra, na solidão da primavera.
Escrito por C.S. às 22h16
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Acorde dito pelo dito digo e falo e grito e solto em linhas tortas e sigo o que foi dito: o toque fino do espaço em que percorrem anas, claras, filhas em arcadas dissonantes de um violoncelo cor de barro delirante eu vejo um violoncelo cor de barro em fundo branco e sobre o rio a ponte, a Pont Neuf dos meus sonhos de 15 anos em diante, um ritmo um acorde que me levante, espanto: estava sobre o pano do palco sombreado e as fadas percorriam com condões de diamantes os olhos dos passantes de um teatro ermo no centro da cabeça no centro do universo no centro do início no centro do orifício e solto o ar e grito não toque a minha pena! faço ares, minto sob a luz da lua errante sou todo um diamante, não perco o jogo e giro: um cavaleiro andante em sua besta incrível corta a história e trota: um cavaleiro errante.
Escrito por C.S. às 22h11
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Para que meu corpo cale,
mergulhe em um cálice,
duas gotas de anis.
Sob um céu sem estrelas,
sob um céu estrelado,
serpente úmida,
sussurre à pele do som que sai de meus ouvidos.
Uivos de lobo, lavem a lâmina
e rasguem a jugular da noite:
quero sono!
Respirar o ar vazio do quarto
é notícia de solidão,
manchete de dor guardada,
esquecida da multidão.
É sentir as costas arqueadas,
nervo que teima a apontar
a postura rebelde.
Nervo no espaço ermo da carne.
Entre veias, líquidos, ossos,
nervo caminha solitário.
Ontem era dia,
solar, a luz invadia o escritório,
vozes estalavam na boca,
meus pelos tremiam,
eriçados de luz.
Agora, lusco-fusco,
drama acompanha.
Torpor, meu desejo,
seja companheiro,
leve esse bicho cansado
pra cama.
Escrito por C.S. às 16h54
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Luto
É a tristeza do que perdi,
esparramada no quarto,
sentada desleixadamente no sofá,
mixada à fumaça do cigarro que escapa pela janela,
marcada profundamente na sola do calçado esquecido
em um canto invisível do armário,
entreaberta na porta da dispensa que,
de velha e roída por cupins,
não fecha.
É a tristeza do que perdi,
muda no alto-falante,
interrompida em átomos de poeira que se escondem
no espaço entre os livros,
na esquina dos cômodos,
nos bolsos do casaco que já não
serve mais,
no fundo, bem no fundo
da gaveta onde guardávamos
objetos inúteis que não tínhamos
a coragem de jogar fora,
nos vãos entre os azulejos amarelos
das paredes da cozinha,
na mancha refugiada no alto
do teto da sala, inerte
e solitária, que só se enxerga
quando alguém a procura.
Sem som, sem cor, sem perfume, sem nome.
A tristeza do que perdi
é a tristeza do que não tive
e não terei mais.
Escrito por C.S. às 16h49
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Tire daqui o que não é seu
E ponha em descanso
Debaixo do sofá.
Deixe
Que adormeça e que
Anoiteça.
Depois,
Preste atenção, camarada,
Faça um inventário da sua identidade
E leia, no documento,
As pegadas,
A fuga do desertor
Para debaixo do sofá.
Da próxima vez, meu irmão,
Tire daqui o que NÃO É SEU
E jogue fora, na fogueira,
Corte em dois mil pedacinhos
Em minúsculos pedaços microscópicos
Que se transformarão em minúsculas e microscópicas partículas
Cinzas
Que se disfarçarão em areia
Bem fina
De um deserto simples e feliz
De onde retiraremos o pó
E fabricaremos um vidro frio,
Reluzente espelho.
Olhe:
Em ti
Fora de ti,
À sua frente,
À sua imagem e semelhança.
Escrito por C.S. às 00h22
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Contrato firmado.
A partir de hoje,
Adoto natureza delicada.
Anoto as particularidades
No caderninho de bordas arredondadas
Como esse que você tem em suas mãos.
Contarei verdades com voz discreta,
Arrumarei as malas da minha dor
Com naturalidade e porte distinto.
No fotograma: de perfil, olhos amendoados,
Em frente ao espelho, mirando o espaço.
Levo para passear o bicho que corre solto
De dentro de mim.
Bicho amestrado.
Mais uma vez.
Delicado, assim.
Fica quietinho,
Bicho.
Bicho indócil:
Preso muito tempo.
Escrito por C.S. às 23h57
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