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    Tecidos e Disfarces


    Rufar de tambores,

    faíscas-explosões de vagalumes,

    cortejo de estandartes na avenida:

    deram-me a chave

    em um breve momento de eternidade

    e, então, se conta o conto:

     

    Era uma vez a chave,

    no bolso do cavaleiro errante

    que, sobre o corcel de ouro,

    luzia na estrada desviante.

     

    Guardada no escuro instante,

    sob o céu de puro diamante,

    chorava sua sorte de metal,

    de pobre latão, mineral,

    esquecida no espaço fino

    das roupas, que no caminho,

    sentiam a brisa intensa

    e a água da chuva imensa

    caindo devagarinho.

     

    Chorava sua pobre sina,

    roendo as roupas rotas,

    mas orgulhosas de seus destinos:

     

    “Mas quando, de quando em quando,

    a água que cai de cima,

    que foge da nuvem branca

    e se espalha por entre o ar

    e se corta em pequenas gotas,

    verei sob o sol escaldante?”

     

    “Mas quando, de quando em quando,

    a brisa que abre o caminho,

    que corta os fios de linho

    tão finos e tão felinos,

    sentirei sobre a minha pele

    de pedra esculpida a fio?”

     

    A chave ensimesmada,

    imersa em seus delírios,

    de tanto pedir às fadas

    as portas de seu caminho

    rasgou com seus pensamentos

    a linda pele de linho

    que cobria o cavaleiro errante,

    montado em seu corcel de ouro

    a luzir na estrada desviante.

     

    A chave enfim tivera

    a sorte de um puro instante:

    deitada sobre a relva estava,

    seu metal, a sorrir, estalava,

    sua sorte, uma quimera.

     

    Mas a chuva que tanto quisera

    e o vento a sentir (pudera!),

    logo lhe revelaram

    o destino que nos espera:

    deitada na relva fria,

    molhada por choros de nuvens,

    cortada por sopros finos,

    tornou-se pura ferrugem.

     

    Do desejo que lhe invadira,

    sua vontade de liberdade,

    transformou-se a pele rica,

    metálica e luzidia,

    em marrom e aspereza,

    em ferro e dureza,

    em dor e agonia.

     

    Portanto, meu caro amigo,

    cuidado com o que queres,

    atenção às suas preces:

    pergunte-se sobre o que vale,

    sobre aquilo que mereces.

     

    Eu, de minha parte,

    já tenho a minha escolha,

    após ouvir tal disparate:

    prefiro ficar no escuro,

    caminhando um percurso duro,

    sem saber o que me espera,

    do que deitado na terra,

    na solidão da primavera.



    Escrito por C.S. às 22h16
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    Acorde

     

    dito pelo dito

    digo e falo e grito

    e solto em linhas tortas

    e sigo o que foi dito:

     

    o toque fino

    do espaço em que percorrem

    anas, claras, filhas

    em arcadas dissonantes

    de um violoncelo cor de barro

    delirante

     

    eu vejo um violoncelo cor de barro

    em fundo branco

    e sobre o rio a ponte,

    a Pont Neuf dos meus sonhos

    de 15 anos em diante,

    um ritmo

    um acorde que me levante,

    espanto:

     

    estava sobre o pano do

    palco sombreado e as

    fadas percorriam com

    condões de diamantes

    os olhos dos passantes

    de um teatro ermo

     

    no centro da cabeça

    no centro do universo

    no centro do início

    no centro do orifício

     

    e solto o ar e grito

    não toque a minha pena!

    faço ares, minto

    sob a luz da lua errante

    sou todo um diamante,

    não perco o jogo e giro:

     

    um cavaleiro andante

    em sua besta incrível

    corta a história e trota:

    um cavaleiro errante.



    Escrito por C.S. às 22h11
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    Para que meu corpo cale,

    mergulhe em um cálice,

    duas gotas de anis.

    Sob um céu sem estrelas,

    sob um céu estrelado,

    serpente úmida,

    sussurre à pele do som que sai de meus ouvidos.

    Uivos de lobo, lavem a lâmina

    e rasguem a jugular da noite:

    quero sono!

     

    Respirar o ar vazio do quarto

    é notícia de solidão,

    manchete de dor guardada,

    esquecida da multidão.

    É sentir as costas arqueadas,

    nervo que teima a apontar

    a postura rebelde.

    Nervo no espaço ermo da carne.

    Entre veias, líquidos, ossos,

    nervo caminha solitário.

     

    Ontem era dia,

    solar, a luz invadia o escritório,

    vozes estalavam na boca,

    meus pelos tremiam,

    eriçados de luz.

    Agora, lusco-fusco,

    drama acompanha.

     

    Torpor, meu desejo,

    seja companheiro,

    leve esse bicho cansado

    pra cama.



    Escrito por C.S. às 16h54
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    Luto

     

    É a tristeza do que perdi,

    esparramada no quarto,

    sentada desleixadamente no sofá,

    mixada à fumaça do cigarro que escapa pela janela,

    marcada profundamente na sola do calçado esquecido

                                      em um canto invisível do armário,

    entreaberta na porta da dispensa que,

    de velha e roída por cupins,

    não fecha.

     

    É a tristeza do que perdi,

    muda no alto-falante,

    interrompida em átomos de poeira que se escondem             

    no espaço entre os livros,

    na esquina dos cômodos,

    nos bolsos do casaco que já não

                                     serve mais,

    no fundo, bem no fundo

    da gaveta onde guardávamos

    objetos inúteis que não tínhamos

    a coragem de jogar fora,

    nos vãos entre os azulejos amarelos

    das paredes da cozinha,

    na mancha refugiada no alto

    do teto da sala, inerte

    e solitária, que só se enxerga

    quando alguém a procura.

     

    Sem som, sem cor, sem perfume, sem nome.

    A tristeza do que perdi

    é a tristeza do que não tive

    e não terei mais.

     



    Escrito por C.S. às 16h49
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    Tire daqui o que não é seu

    E ponha em descanso

    Debaixo do sofá.

    Deixe

    Que adormeça e que

    Anoiteça.

    Depois,

    Preste atenção, camarada,

    Faça um inventário da sua identidade

    E leia, no documento,

    As pegadas,

    A fuga do desertor

    Para debaixo do sofá.

     

    Da próxima vez, meu irmão,

    Tire daqui o que NÃO É SEU

    E jogue fora, na fogueira,

    Corte em dois mil pedacinhos

    Em minúsculos pedaços microscópicos

    Que se transformarão em minúsculas e microscópicas partículas

    Cinzas

    Que se disfarçarão em areia

    Bem fina

    De um deserto simples e feliz

    De onde retiraremos o pó

    E fabricaremos um vidro frio,

    Reluzente espelho.

     

    Olhe:

    Em ti

    Fora de ti,

    À sua frente,

    À sua imagem e semelhança.

     



    Escrito por C.S. às 00h22
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    Contrato firmado.

    A partir de hoje,

    Adoto natureza delicada.

    Anoto as particularidades

    No caderninho de bordas arredondadas

    Como esse que você tem em suas mãos.

     

    Contarei verdades com voz discreta,

    Arrumarei as malas da minha dor

    Com naturalidade e porte distinto.

     

    No fotograma: de perfil, olhos amendoados,

    Em frente ao espelho, mirando o espaço.

     

    Levo para passear o bicho que corre solto

    De dentro de mim.

    Bicho amestrado.

    Mais uma vez.

    Delicado, assim.

     

    Fica quietinho,

    Bicho.

     

    Bicho indócil:

    Preso muito tempo.

     



    Escrito por C.S. às 23h57
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